sábado, 28 de novembro de 2009

Yin-Yang


Yin-Yang
A chuva caía serenamente do lado de fora e eu via, sentado sobre a cama e através da janela do meu quarto, o sol a deitar-se no horizonte, levando consigo o último raio de luz. Mais um dia que acabava, significava mais uma noite que nascia, com ela atormentava-me novamente a terrível e inevitável maldição.
Em breves minutos a estrela diurna perder-se-ia da vista, não havia muito tempo: com o mínimo de esforço, estiquei o braço para pegar no cintilante objecto que descansara todo o dia na minha enxerga. Cada segundo, cada minuto, cada hora foram passados tendo como companhia um simples fatal punhal de prata, cuja pega possuía rubis encrostados.

Sorri enquanto uma pequena gota de água deslizava suavemente pela minha face branca cal, pensava para mim mesmo que aquela lágrima seria a única coisa pura existente em mim: tão transparente, tão cristalina, tão brilhante, tão sincera.
O punhal na minha mão oscilava da esquerda para a direita, da direita para a esquerda sobre ‘’Liberdade’’; ironia do destino, afinal nunca toquei nessa jóia preciosa chamada liberdade, nunca lhe senti a textura nos dedos. Mas tudo estava prestes a terminar: dentro do meu corpo palpita, agita, revolta-se o líquido vermelho, esperançoso de admirar o frio da lâmina e borrar de escarlate os rubis mortos.
Porquê? Porquê que a vida a levara assim? Não era suposto sermos imortais? Então lembrei-me do brilho dos seus olhos, como apreciava aqueles olhos-de-tigre irradiando amor e alma, que o tempo os gela-se para o mundo puder venerar tamanhas preciosidades… Quis o tempo esgotar com eles como finda a lua com o sol e a culpa… a culpa tão-somente minha, só e friamente minha.
Subi o punhal, como se de um espelho se tratasse, observei o castanho dos meus olhos esbranquiçar ao mesmo tampo que os caninos superiores mudavam de tamanho, lá ao fundo da imagem, vislumbrei as negras asas a aflorar das minhas costas. Esta maldição afastou-me dela, nascido vampiro nunca pude escolher entre o bem e o mal, os instintos da espécie contrariavam superiormente os desejos do coração.
Na minha mão o punhal perdeu virtude à medida que inclinava a cara. Ela enxergou para além do monstro, jamais deveria ter cedido ao pedido que ela me fez: ‘’ Torna-me igual a ti, deixa-me ser parte do teu mundo e da tua escuridão e se parte da minha luz! ‘‘
Agiu o instinto e não o sentimento na acção que cometi: o ser divino na minha frente, anjo pisando a terra e marcando-a a cada passo, como marcava a minha alma com cada gesto, cada carícia no meu rosto, avizinhava-se como presa fácil. Não resistiram os meus dentes, a minha língua, a minha cede de sangue em apoderar-se do pescoço pálido e puro da minha amada. Não resistiu ela, transformando-se em cinza e espuma às mãos de um ente diabólico. As duas forças antagónicas em si, destruíram-na, demasiado fortes até para a força da natureza que ela era.
Icei novamente a cabeça, diz-me adeus a última faísca de luz, agora ou nunca! Quando o negrume dominasse o céu, também me dominaria a lua nova e negra. Punhal firme apontado ao peito, o movimento só um: com força e rapidez a prata atravessou o peito do lado esquerdo. A boca aberta num grito mudo louva a independência do sangue que corre à procura da salvação. Abate-se inerte meu corpo mole sobre os lençóis tingidos agora de mim.
Fecho as pálpebras lentamente, supostamente divisaria a solidão abraçar o meu indivíduo, contudo tal não aconteceu! Um clarão de luz branca, acompanhada pela ondulante melodia de uma harpa sonante, aclamava:
- Moritzzz…Mooritzzz…Moriitzzz… - Repetia serpenteante a voz uma, duas, três vezes o meu nome. Ao que eu respondi:
- Torna-me parte de ti, deixa-me ser parte do teu mundo e da tua luz e se parte da minha escuridão!
Sensibilizei a alma individualizar-se do corpo, desembaraçava-se dele. Quando ambos já se distinguiam bastante bem, eu consegui presenciar o monstro a normalizar-se: os dentes diminuíam de tamanho, os olhos regressavam ao tom de mel e as assas, que entretanto brotaram das minhas costas, desapareciam. Estou livre daquela execração com que me baptizara a vida, pensei eu.
- Moritzz… - Sussurrou a voz mais nítida, ao meu ouvido direito
A paz que me invadia tranquilizava cada centímetro de mim, volto a atenção para a direita, se lágrimas de felicidade possuísse a alma, as chorariam meus olhos neste instante! Tão bela, tão serena, tão angelicalmente vestida de branco, de cabelo repousando sobre os ombros e uma túlipa sobre a orelha a espreitar, fitava-me com o mesmo brilho que eu queria imortal.
- Vamos poder ficar juntos, ou aguarda-me o inferno? – Perguntei desfazendo o sorriso dos meus lábios.
- Lúcifer não quer anjos nos seus fogos! – Declarou ela, carinhosamente passando a sua mão pelo meu rosto lívido.
- Anjo? – A minha expressão tornou-se em incredulidade. – Eu…
- Sim, anjo! – Reforçou ela. – No entanto ainda não chegou a tua altura.
- Mas…
- A vida foi madrasta contigo, é hora de teres a oportunidade de seres feliz!
- Eu quero ser feliz a teu lado, na eternidade! – Respondi convicto da decisão que tomara, durante os segundos que segurava as suas delicadas mãos.
Ela tomou-me as mãos com brandura, um arrepio quente percorreu a minha espinha à medida que me dirigia à janela com ela. Na noite, lá fora, não se lobrigava mais que simples escuridão. Ela ergueu o braço delgado e apontou com o dedinho para o céu.
- Olha Moritz, olha e vê lá no veludo negrume desta esfera! – Pediu-me ela.
Esforcei e esforcei a visão mais uma vez durante momentos, até que alcancei por descobrir um ponto pequeno emitindo uma luz ténue branca. Quanto mais notava, mais clara se tornava a estrela celeste.
- Estás a ver? Até na solidão das trevas se acha esperança! – Cantava ela na sua melodiosa voz de brisa marinha.
Conduziu-me repetidamente para junto da cama, sem retaliações estendi-me dentro do meu corpo morto. A mão direita dela arrancou calmamente a bicuda do meu peito, com o dedo indicador esquerdo, a passar sobre a lâmina de prata, limpava qualquer vestígio de visco encarnado. Pousou o objecto, debruçou-se sobre mim e a escassos milímetros dos meus lábios murmurou:
- Aquela estrela serei eu, eu que te estarei a guardar dia e noite, noite e dia. Até chegar o momento de nós sermos parte do mesmo mundo, e partilharmos a luz e a escuridão um do outro!
Cessou a sua súplica angelical nestas últimas palavras. Cheirei o perfume floral que imanava dela à medida que os nossos lábios se uniam num beijo cheio de caloroso amor, calorosa vida e a luz entrou em mim unificando corpo e alma.

O sol nascia lá no horizonte, a janela aberta do quarto permitiu aos primeiros raios de luminosidade invadirem o meu espaço, atacando-me o rosto dormente. Acordei com aquele clarão, mais um pesadelo, ou sonho? Talvez nenhum dos dois e um pouco de ambos! Desconhecia por completo aquele anjo que aparecia sempre na minha cabeça, apesar de nunca tomar conhecimento da identidade dela sabia que me espiava lá ao longe, perto da minha alma.
Eu, Moritz Schrwaz sinto-me protegido e em paz com a memória de mais uma noite com a minha metade de alma. Espero pelo dia que sendo luz e escuridão no mesmo mundo, uniremos novamente o nosso Yin-Yang.


*** Fim ***

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